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Quarta - 14 de Julho de 2010 às 17:51
Por: Alexandre Garcia

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Alexandre Garcia é jornalista em Brasília
Alexandre Garcia é jornalista em Brasília

O jornalista gaúcho Luiz Carlos Prates, mostrando as razões pelas quais a Seleção de 1970 é considerada a melhor de todas, explicou que foi por causa do governo Médici: o chefe da delegação era um brigadeiro, o preparador físico um capitão (Cláudio Coutinho) e imperava a disciplina militar - até o Jairzinho cortou a cabeleira. Com organização e disciplina, a seleção ganhou o tri com futebol bonito, brasileiro no estilo e na raça. Foi, realmente, a melhor de todas.

Mas não foi por causa do Médici. Foi por causa do clima que envolvia o país em tempos de "Ame-o ou Deixe-o" - adesivo que todos carregávamos no para-brisa de nossos carros, mensagem destinada aos terroristas que atrapalhavam a paz para prosperar. Por causa do espírito do "Pra Frente Brasil", um entusiasmo que fez o Brasil crescer à média de 11,2% por três anos consecutivos, o que ficou conhecido como "o milagre brasileiro". Era um país organizado, cidades limpas, depois da campanha contra o "Sujismundo", segurança nas ruas e emprego.

Um jovem jornalista meu admirador mandou-me o mais recente artigo dele, em que falava no "sanguinário Médici". Expliquei a ele que havia uma guerra interna, de gente que havia pegado em armas para derrubar o governo e o governo se defendia. Que de 1964 a 1984 - período em que durou o regime militar - morreram nessa luta menos de 500 pessoas, de ambos os lados. Dá quatro dias de homicídios no Brasil de hoje. O jovem colega reconheceu que não vivera aquela época, que o "sanguinário" era por conta do professor da faculdade de jornalismo, que assim se referia a Médici. O professor, pelo jeito, tampouco vivera aquela época. Apenas destilava raiva por não terem conseguido implantar no Brasil uma ditadura como a que perdura há 51 anos em Cuba.

Pois eu vivi aquele período. Tinha 23 anos em 31 de março de 1964 quando Goulart foi derrubado depois de grandes passeatas nas capitais pedindo o fim de seu governo. Um "Grupo dos Onze", uma organização criada por Brizola para chegar ao poder, em geral armada, iria tomar a prefeitura da cidade onde eu trabalhava - Encantado, RS - e o prefeito pediu minha ajuda para defender a prefeitura. Anos depois, fui assaltado por um grupo chamado VAR-Palmares, com vivas a Che Guevara, no Banco do Brasil Viamão. No auge do governo militar, em 1968, eu fui presidente do Diretório Acadêmico do jornalismo da PUC/RS. Depois fui repórter do Jornal do Brasil. Ouvia músicas de protesto, vibrava com peças teatrais críticas, como "Liberdade, Liberdade", fazia poemas em honra de Dom Hélder, Luther King e Che Guevara. E nunca senti a tal censura de que tanto falam.

Lembrei-me disso porque leio nos jornais que o grupo Dzi Croquetes desafiava o governo militar; que o Chico fazia letras ironizando Médici e Geisel; que Augusto Boal e outros teatrólogos caiam de pau no governo; que o Pasquim satirizava os militares. Paradoxal. Aliás, é bom lembrar que a ditadura manteve eleições para tudo. Presidentes eram eleitos como foi Tancredo: pelo Congresso. Ulysses perdeu para Geisel; o General Euler, da oposição, perdeu para Figueiredo. Houve restrições: um terço dos senadores eram nomeados; em cidade de fronteira e capitais, os prefeitos eram eleitos de forma indireta, assim como os governadores. E um dia terminou. Tal como planejara Geisel, que extinguiu o AI-5, a censura, e deixou para Figueiredo abrir a camisa de força do bipartidarismo, promover a anistia e a volta dos exilados e entregar tudo para os civis.

Alexandre Garcia é jornalista em Brasília e escreve em A Gazeta às terças-feiras. E-mail: alexgar@terra.com.br



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